Paola

Orgulho da dona Fátima, Paola conseguiu o emprego que tanto desejava. Desde que aprendeu a ler e a escrever, ela só se interessava em saber consertar as coisas. Ansiava pelos almoços de domingo, quando encontrava seus primos e podia brincar com os carrinhos deles – até ficar de castigo por ter desmontado todos. Ainda que dona Fátima achasse estranho esses comportamentos, nunca quis julgar seus gostos. Os tempos são outros, né? Era o que dona Fátima sempre respondia quando alguém questionava as preferências de Paola. A mãe não tinha do que se queixar. A menina sempre foi uma boa filha. Prendada e estudiosa.

Dona Fátima deu à luz a Paola e, sete anos depois, a Vicente. Seu Jeremias, o marido, achava que mulher servia mesmo para ficar em casa. Nunca deixou dona Fátima trabalhar. Ela entendia, afinal, era melhor entender do que enfrentar o marido, né. Mas assim que nasceu Vicente, seu Jeremias percebeu que não levava jeito para ser pai e fugiu. Paola com sete, Vicente recém nascido, aluguel, contas de água e luz, despensa vazia e a prestação do fogão à gás foram as grandes heranças deixadas por seu Jeremias a dona Fátima. Ela, claro, aceitou. Sabia que a vida não era gentil com todas as mulheres. Arregaçou as mangas, começou a trabalhar um turno de doméstica. Enquanto Paola ia para a escola, ficava em casa cuidando do bebê. Quando Paola voltava, dona Fátima ia trabalhar e deixava uma criança cuidando da outra. Não teve escolha, a vida precisava continuar.

Ver a filha formada na faculdade de engenharia mecânica certamente foi a maior alegria da vida de dona Fátima. Não sabia a quem Paola tinha puxado. Seu Jeremias nunca gostou de estudar e Vicente saiu igualzinho. Já dona Fátima nem sabe o que é estudar. Na formatura, Paola foi oradora da turma. Era a única menina. A mãe olhava pra filha lendo aquela montoeira de palavras difíceis e não entendia nada. Só deixava descontrolar as lágrimas e o orgulho. Que boa filha. Prendada e estudiosa.

Paola se formou graças a uma bolsa integral. Estudava de dia e trabalhava à noite, como caixa num mercadinho 24 horas. Dormia quando podia. Como dizia dona Fátima, ela teria tempo para dormir depois. Primeiro, os estudos e o trabalho, porque a comida não brota sozinha dentro de casa. Paola ficou cinco anos nesse ciclo doido e doído. Por sorte, agora se formou e conseguiu o emprego que tinha relação com seus estudos. Seu sonho sempre foi ser engenheira mecânica na área automotiva.

Por causa desses sonhos diferentes para uma menina, Paola nunca tinha assunto com as primas nos almoços de domingo. Elas falavam dos crushes, tiravam sarro da roupa que a Beatriz tinha ido à festa da semana passada, das fofocas de quem tinha ficado com quem. Ela tinha preguiça desses papos, só sabia falar do funcionamento dos carros. Não tinha tempo para esses negócios de namorar. Saía de vez em quando com uns carinhas nada a ver, como suas amigas diziam. Mas assim era melhor, pois ela sabia que jamais se apaixonaria por um carinha nada a ver. Se envolver com alguém seria perder o foco da maior conquista da família, que era alguém ter uma carreira, ao invés de ser dona de casa e apenas cuidar dos filhos. Por isso, Paola fazia parte do time de mulheres que não queria ter filhos e muito menos casar. Quase deu uma derrapada nesse foco há dois meses, na sua festa coletiva de formatura, quando saiu com um carinha da faculdade, que estava prestes a embarcar para um intercâmbio. Ela até que curtiu, mas sabe como são esses carinhas nada a ver.

Faculdade, mercadinho, dona Fátima, seu Jeremias, Vicente, primas, carinhas nada a ver. O fluxo de pensamentos de Paola eram loopings eternos enquanto estava sentada na cadeira estofada da recepção do seu futuro escritório. Não entendia por que aquelas burocracias tinham que demorar tanto. Exame de sangue ali, preenche papel e entrevista aqui, entrega documento acolá. Ela até estava tonta e enjoada de tantas informações, mas sabia que era coisa dos nervos. Não foi fácil estudar para o tantão de provas que aquele trabalho exigia. Precisou esconder os cadernos embaixo do caixa do supermercado e dava uma olhada no conteúdo entre uma embalada de produtos na sacola e a entrega das notas fiscais. Todo o esforço e as noites mal dormidas valem a pena quando se trata da realização do nosso sonho, já dizia dona Fátima. Só pensava no orgulho que sua mãe sentiria, quando voltasse para casa com a carteira assinada. Até que o médico e seu futuro chefe abrem a porta da recepção. Paola achou estranho que ambos estariam ali para desejar suas boas-vindas.

– Mocinha, a senhorita não vai ser contratada. Queria meter o calote na gente, né? O RH cobra que a gente tem que contratar mulher, diversificar os gêneros aqui, pra quê? Para vir uma embuchada querer estabilidade?

Paola não entendeu nada, até que o ex futuro chefe esfregou o exame de sangue em sua cara. Ela, claro, aceitou. Sabia que a vida não era gentil com todas as mulheres.

Bianca

Bianca

Bianca é Bia. É prosa e poesia. É intensidade e agonia. Se arrepia com música, se emociona com as cores dos passarinhos, se encanta com histórias e se contenta com um livro na mão. É apaixonada pela vida e por aprender.