Natália

Acordei sem coragem de abrir os olhos. O gosto amargo da minha boca já denunciava que a noite havia sido forte. Pra que beber tanto, Natália? Enquanto estava me julgando, eis que consegui desgrudar as pálpebras. Onde estava? Esse criado mudo aqui do meu lado não é meu. E esse armário bizarro? Meus olhos acompanham o chão e vão até o teto: uma calça jeans jogada, alguns moletons bagunçados em uma das prateleiras de madeira… um vento frio me faz grudar em cobertas desconhecidas, percebendo que abaixo delas estou nua. Decido que seria uma boa ideia me virar na cama, acompanhada da minha dor de cabeça, e dou de cara com ombros largos e tatuados, que dormem junto com seu dono.

Que porra é essa? Onde fui parar?

Lentamente reconheço o cheiro que exala da respiração que vibra ao meu lado: é Régis. Meu vizinho. Tento não parecer desesperada, tento não esboçar reação nenhuma, quando, de súbito, me lembro o que fiz no dia anterior.

Já fazia tempo, desde que terminei meu namoro, que Régis me chamava a atenção pelos cantos do nosso prédio. Várias vezes nos cruzamos no elevador, de manhã cedo e no fim do dia. Seu perfume barato sempre acelerou meus batimentos. Não foram poucas as vezes que sentia vontade de dar um bom dia e algo mais para ele, ali mesmo, naquele elevador. Mas sempre me contive. Eu e minha timidez, meu jeito idiota de não saber lidar com a vida de solteira. E ele, óbvio, com a irritante timidez dele. Me olhava com aqueles cílios loiros compridos que vestiam seus olhos verdes e que me esperavam sempre dizer o que jamais teria audácia.

Mas naquela festa, tudo foi diferente. Finalmente tive coragem de me aproximar. Sem dizer nada, só com a piedade que em meus olhos habita, eu o beijei. Com força e convicção. E acordei em sua cama. Só consigo lembrar do beijo, de irmos juntos para casa e eu ter dito pra ele: não vai me chamar para entrar? A partir daí, um apagão. Eu dei pra ele e não faço a mínima ideia de como foi.

Forço minha memória e, ainda bem, lembro de ele ter sido carinhoso e de que nos protegemos. Ainda assim, agora me sinto mais amargurada do que o gosto na minha boca. O que farei quando ele acordar? Dou bom dia? Beijo ele? Saio de
fininho? Deixo um bilhete? Peço para ele me mandar mensagem? E se eu parecer desesperada? E se ele me ignorar? Se eu for só mais uma? E também qual o problema de ser só mais uma? Por que tenho que me privar das minhas vontades? Porque mulher decente não dá no primeiro encontro? Por que é que cargas d’água estou me martirizando? Minha cabeça começa a doer cada vez mais. São muitas dúvidas. Não sei por que tive a certeza de ter feito o que fiz.

Ressaca moral é foda.

Eis que parece que meus pensamentos, que apesar de mudos, gritavam, foram capazes de acordá-lo. Vejo seus ombros se projetarem para trás numa tentativa boba de se despreguiçar. Ele está virando seu corpo para ficar de frente para mim. Será que vai se assustar? Vai me perguntar o que faço ali? Vai me chamar de vadia por ter dormido com ele? Ou vai me achar aventureira e corajosa? Por que é que mesmo estou me martirizando de novo?

-Natália? Natália! Você está bem?

Abro meus olhos, limpo a baba que escorreu em minha boca e percebo que cochilei na mesa da balada. Eu sabia que não seria bom negócio vir para essa festa. Eu estava cansada. Não nasci pra essa vida de solteira mesmo. Como pude sonhar algo assim? Vou conectando um pensamento no outro desse jeito ágil irritante e, quando levanto minha cabeça, entro em choque com a realidade: Régis me acordou. Aqueles olhos insuportavelmente brilhantes me olhavam na mesa da festa com o mesmo mistério dos olhares do elevador.

-Não precisa ficar com vergonha. Posso cuidar de você? Posso levar você para casa?

Levantei, afastei meus pensamentos autopunitivos e me enganchei em seu braço. Assim, sem muito pensar. Hoje vou fazer o que quero fazer. Com sonhos que podem virar realidade a gente não brinca e muito menos se martiriza.

Bianca

Bianca

Bianca é Bia. É prosa e poesia. É intensidade e agonia. Se arrepia com música, se emociona com as cores dos passarinhos, se encanta com histórias e se contenta com um livro na mão. É apaixonada pela vida e por aprender.