Eu te quero livre também

Uma das frases mais célebres da filósofa francesa Simone de Beauvoir é: “Querer-se livre é também querer livres os outros”. Apesar das décadas que nos separam do momento em que a frase foi escrita, a ideia de liberdade ainda nos persegue. O que nos torna livres? Somos realmente livres para fazer escolhas e viver de acordo com elas? E quanto ao amor, alcançamos a liberdade de vivê-lo de maneira plena?

Se observarmos a forma como as relações humanas têm se estabelecido, talvez saltem aos olhos avanços importantes. No entanto, ainda testemunhamos o cerceamento da liberdade. Quando se trata de amor e sexo, continuamos alimentando estereótipos e preconceitos que tendem a limitar e prejudicar a vida de muitas pessoas.

Dezessete de maio é reconhecido como o dia internacional de combate à homofobia. As relações homossexuais sempre estiveram presentes nas diferentes sociedades e culturas, tendo permitido posicionamentos ora de aceitação, ora de censura. Ainda hoje muitas pessoas só consideram “naturais” e “aceitáveis” as relações afetivas e sexuais entre um homem e uma mulher. Aqueles que se engajam em comportamentos que violam essas normas são considerados minorias desviantes. Pior do que isso, tornam-se alvos de perseguições, ridicularizações e outras formas graves de violência. Quem é exposto ao preconceito motivado pela orientação sexual pode sentir medo, raiva, desamparo e desesperança. Tantas emoções negativas podem contribuir para o desenvolvimento de doenças mentais, como a depressão e a ansiedade. O mundo é, para quem sofre preconceito, um lugar hostil.

A Psicologia, profissão que eu escolhi, contribuiu durante algum tempo para a manutenção de tamanha hostilidade. Nas duas primeiras edições do Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM), o “homossexualismo” era considerado um transtorno de personalidade e, posteriormente, um transtorno de identidade sexual. Em decorrência da falta de comprovação científica sobre a relação entre homossexualidade e psicopatologia, somada à pressão do ativismo político, as relações não-heterossexuais deixaram de ser consideradas doenças psiquiátricas em 1973.

Em 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais do Código Internacional de Doenças (CID). No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) proibiu o tratamento da homossexualidade em 1999, entendendo se tratar de uma forma de manifestação da sexualidade assim como a heterossexual.

É incrível perceber o quanto é possível realizar mudanças positivas por meio do acesso ao conhecimento e à mobilização social. São conquistas que levaram anos e precisam ser mantidas. Isto porque o nosso interesse está na saúde e no bem-estar das pessoas. Dias de conscientização como o de hoje não podem ser esquecidos. São momentos para lembrar as conquistas já alcançadas e todos os desafios que aparecem no meio do caminho.

Temos a tendência a exigir que os nossos desejos sejam supridos e que possamos usufruir da liberdade que nos prometeram desde cedo. Mas do que adianta viver em um mundo em que só alguns podem viver essa liberdade de maneira plena? Não estamos isolados. Para mim, só é bom mesmo ser livre se você puder ser também.

Priscila Lawrenz

Priscila Lawrenz

Priscila Lawrenz, 27 anos. É psicóloga e doutoranda em Psicologia. Realiza pesquisas nas áreas de desenvolvimento humano, violência contra crianças e preconceito contra minorias sexuais. Como muitas pessoas, passa o tempo livre assistindo a filmes, lendo livros que nem sempre tem a ver com Psicologia e contando as horas para visitar os pais no interior.