A História de Maria

Eu vou contar a história de Maria, uma mulher forte. Na década de 1960, época em que muitas mulheres lutavam de forma ferrenha para ocupar os espaços acadêmicos e de trabalho, Maria formou-se na primeira turma de Farmácia e Bioquímica da Universidade Federal do Ceará. Em São Paulo, deu um passo além e realizou o curso de pós-graduação. Nessa época, conheceu Marco, o futuro marido e pai das três filhas. A princípio, o casamento era marcado pela simpatia e solicitude de Marco.

No entanto, após o nascimento da segunda filha e de começar a enfrentar problemas no trabalho, o marido de Maria tornou-se violento. Começaram as agressões, as quais culminaram em um disparo feito por Marco e que deixou Maria paraplégica. Não satisfeito, ele ainda tentou eletrocutá-la durante o banho.

Aconteceu com Maria, mas pode acontecer contigo, comigo e com todas as mulheres que vivem nesta sociedade adoecida, tomada pela violência e pela ideia de que os homens têm posse sobre as nossas vidas. Após as duas tentativas de homicídio, Maria saiu de casa e começou uma jornada em busca de proteção e justiça. Nesse período, década de 1980, as situações de violência contra a mulher eram consideradas crimes de menor potencial ofensivo e as penas eram reduzidas ao pagamento de cestas básicas.

A primeira condenação aconteceu no início da década de 1990, mas Marco continuou em liberdade. O que será que passa na cabeça de uma mulher que vê o homem que tentou tirar a sua vida desfrutando da liberdade e podendo cometer a mesma violência novamente? Provavelmente, Maria foi inundada pela sensação de impunidade. No entanto, não foi suficiente para fazê-la parar. Com o apoio de comitês de luta pelos direitos das mulheres, Maria encaminhou uma petição à Comissão Interamericama de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A comissão responsabilizou o Estado brasileiro por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica contra as mulheres. Em outras palavras: o nosso país precisou passar vergonha em nível internacional para que as autoridades começassem a realizar mudanças efetivas em prol da proteção das mulheres.

Em 07 de agosto de 2006 foi sancionada a Lei nº 11.340, a Lei Maria da Penha. A mulher forte do começo desta história tornou-se uma referência em todo o mundo pelos esforços realizados em prol da dignidade das mulheres. Muitos avanços foram alcançados desde então, mas o cumprimento do que está estipulado em lei ainda é um desafio. O Brasil ocupa o quinto lugar no mundo em número de feminicídios e muitas mulheres continuam convivendo diariamente com diferentes formas de agressão.

Violência não é só aquela que deixa marcas no corpo, mas todas as situações em que as mulheres são humilhadas, ridicularizadas, obrigadas a ter relações sexuais e impedidas de trabalhar ou estudar. Muitas mulheres passam anos enfrentando dificuldades para falar sobre o assunto e notificar as autoridades. Isto porque o tema continua sendo um tabu. Sofremos os efeitos diários das normas hierárquicas de gênero que atribuem aos homens o controle sobre os bens e os comportamentos das mulheres. Além disso, no caso das mulheres que procuram ajuda, muitas vezes são recebidas com desdém por conhecidos e autoridades.

A verdade é que ainda não nos sentimos seguras. O grande desafio que se impõe a nós, mulheres deste tempo, é manter a força que trouxe Maria até aqui. Por ela, por nós e pelas próximas gerações.

Priscila Lawrenz

Priscila Lawrenz

Priscila Lawrenz, 27 anos. É psicóloga e doutoranda em Psicologia. Realiza pesquisas nas áreas de desenvolvimento humano, violência contra crianças e preconceito contra minorias sexuais. Como muitas pessoas, passa o tempo livre assistindo a filmes, lendo livros que nem sempre tem a ver com Psicologia e contando as horas para visitar os pais no interior.