A conexão que nos falta

Há alguns dias, vi dois meninos conversando, deviam ter entre dez e doze anos acho, estávamos numa padaria. De repente se deram um abraço e um disse “cara, obrigado por ser meu amigo”. Meu sobressalto foi tão espontâneo, quanto o meu pensamento: eles estão começando cada vez mais cedo. Reflexão simples, banal e talvez comum a outros homens. Vi os dois se afastarem e não percebi sinal algum que não fosse de amizade. Meu café chegou, quente e instigante como sempre, mas o primeiro gole desceu rasgando a certeza de que por mais doutrinada que minha percepção seja, meu machismo está sempre à espreita.

Minha geração, da década de 80, ainda não sabe lidar com algo que os dois garotos tinham tão genuinamente. Uma relação calcada na simplicidade da emoção. Tive muitos amigos, mas tentando contar em quantos eu pude dar um abraço e agradecer simplesmente pelo momento e pela amizade, o espantoso número foi zero. Buscando a causa desse vazio, cheguei num ponto muito mais temoroso. A inteligência emocional em nós homens é quase nula.

O machismo que define minhas percepções nos outros é o mesmo que nega a sensibilidade em mim. Crescemos no mundo formatado para que sejamos fortes, corajosos, viris, podendo usar a cueca por cima das calças e vestir uma capa, só faltaria voar. Essa síndrome babaca fez (e faz) de mim e muitos parceiros que conheço uma classe racional de resolvedores de problemas. Mas e nossos problemas? E nossos sentimentos?

É uma verdade entre os homens que sentimentos não são compartilhados na pelada de quinta. Lá é espaço para falar mal do trabalho, das gostosas, do governo (está na moda pró ou contra), de tudo que não for nós mesmos. Há em nós homens algo muito estranho relativo às emoções. Aprendemos, cedo demais talvez, a negá-las com a força, literalmente a força, se possível escondendo numa caixa muito guardada no canto do cérebro. E o resultado disso é que estamos nos desconectando do mundo atual.

As minorias iniciaram, lá atrás ainda, o movimento para ganhar voz e estão reverberando com mais força nas redes sociais. E o que vejo, é uma onda de haters, numa grande maioria homens com fotos de perfil sem camisa, demonstrando toda a virilidade, atacando uma mulher que só quer respeito, ou pior que só quer falar do corpo feminino para outras mulheres. E lá estão elas, negros, indígenas, imigrantes, todos vistos como ameaças a uma sociedade estabelecida pela força e voz única de ser homem.

O mais trágico nisso é que o índice de mortes masculinas por AVC, infartos, câncer e outras doenças com fundo psicossomático só aumenta. E tudo pela falta de conexão interna. Eu sei com natural clareza qual o limite da minha força. Sei quando posso ganhar uma corrida, queda de braços ou um drible no campo. Mas desconheço qual seria a extensão de um sentimento, talvez me falte vocabulário sequer para nomeá-los. Qual o limite das emoções? Será que é tipo uma medida de uso do cérebro e chegamos a incríveis 15%?

Para mim, foi preciso perde de clareza, cansaço e medo de um infarto para que eu pudesse procurar ajuda, que veio na forma de terapia, o melhor investimento da minha vida. Tenho um amigo que esperou um AVC e só depois disse que estava passando uma barra. Tudo pela imposição social do homem ter que permanecer no controle. Aquela voz interna falando repetidamente “não chora”, você não é vulnerável.

Amigo, esqueça isso e faça um favor a si mesmo: estabeleça laços, crie pontes emocionais, peça ajuda, chame para um café ou ceva se preferir, mas não finja ser um robô. Se o homem soubesse a força que tem uma emoção não levaria uma vida sufocando a si mesmo.

Jimi Aislan

Jimi Aislan

Jimi Aislan é um pouco de cada lugar. Apaixonado por pessoas, histórias e café. Tem na junção desses três amores a síntese da vida, pois conversar é a base das conexões e um café, alma da autoconsciência. IG: @jimiaislan www.nosepalavras.com